Porque parei de te curtir

Eu não sei se vale a pena eu ficar curtindo o que você posta no facebook, acho que já cansou. Acho que já está claro a todos os nossos amigos em comum e, quão raros sejam, também aos incomuns, que fomos separados no nascimento por algumas semanas e alguns quilômetros, fora isso, sou o que você é. E, com o perdão da redundância, você é aquilo que eu sou. Então, ficar curtindo cada passo seu é perda de tempo, é falta de modéstia e, mais que isso, um desserviço à rede social. Espero que não me entenda mal, sei que não me entenderá mal, você me compreende,e aposto que já tinha até pensado nisso mas, assim como eu, estava enrolando para sugerir. Então, fica acordado? Nem eu te curto mais, nem você me curte mais.

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Conto erótico invertido

Eu o deixo a sós com a notícia. (eu me dispo da notícia, e minha nudez parada te denuncia e te espelha). Eu o deixo a sós com a notícia. Henrique lança olhares como garras e pede, silenciosamente, que eu permaneça ali – contra a minha vontade, contra a vontade de todos os outros. Eu deixo a sala e finjo ignorá-lo. Minhas costas são pura expressão dessa violência não-relatada. Ele observa enquanto os meus panos caminham por traços lombares, ele observa e abandona as súplicas, seus olhos ainda não conseguem se ausentar do desejo. Um tapa na cara, o barulho seco de uma viga metálica arremessada aos joelhos, as amarras que ainda se fazem sentir. E o amor, para ele, continua sendo esse formigamento anal que custa a ir embora.

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A viagem parte X+1. O Porto Parte 2

No quarto, encontramos o último colega que faltava conhecer: um americano da Flórida, com jeito de gente boa, que conhecia muitos brasileiros. Ele era arquiteto, tinha vinte e tantos ou trinta e poucos anos, e estava viajando o mundo com uma bolsa de estudos para pesquisar projetos arquitetônicos de arenas de eventos. Nas palavras dele: “pfff. basicamente estão me pagando pra viajar :D “. Muito sexy e, eu chutaria, gay. No dia, ele já tinha andado bastante e visitado a Casa da Música, um dos lugares ‘mais afastados’ (não daria pra ir a pé) que o Alan sugeriu que eu fosse. Perguntei se tinha visto a programação de eventos para os próximos dias, e ele  se desculpou falando que não tinha a menor ideia, que estava muito focado na arquitetura.

Vista da Torre dos Clérigos pela janela inclinada do meu quarto no Hostel.

Era véspera de carnaval e a cidade estava barulhenta. O hostel, muito bem-localizado, ficava um pouco no meio da muvuca e, além disso, o grupo de 58 estudantes de intercâmbio também ajudava a compor a trilha para uma noite difícil. Depois de encerrar a conversa com Claudia Schiffer e o Arquiteto sexy, e, depois de uma luta relativamente breve com os barulhos, consegui dormir. A noite teria sido ótima, se não tivesse sido interrompida por um ruído forte vindo da direção da Claudia. Acordei de sobressalto e me virei depressa pra saber o que estava acontecendo na cama ao lado: Claudia chorava sozinha na cama, e soluçava ruidosamente – e eu achando que o arquiteto estava tentando estuprá-la. Acho que estava sofrendo pela volta à fria Alemanha, tinha sentido um draminha no papo no Plano B. Voltei a dormir.

Acordei às 7h30, todos ainda dormiam no quarto – menos a curitibana que não tinha dormido lá, danadinha-, peguei meu mapa, meu casaco e desci para a recepção. O café da manhã não estava totalmente servido, mas já deu para comer o emmental (que, por lá, dá em árvore que nem o queijo prato aqui) e o cereal do dia. Pulei pra fora do Hostel e comecei a seguir o trajeto que o Alan tinha me indicado num mapa. No quarteirão que separava o Hostel da Torre dos Clérigos, uma única lojinha de souvenirs estava aberta àquela hora daquele dia (carnaval), então aproveitei pra fazer as compras: dedais, galinho pro sobrinho, colher pra Laila que me emprestou a mala e imãs de geladeira. Eram as minhas primeiras compras  da viagem, e, no Porto, eram grandes as probabilidades de serem as últimas. Poderia seguir o resto dia sem me preocupar com presentes. O vendedor da lojinha, com um forte sotaque não-português, me perguntou de onde eu era, perguntei o mesmo pra ele: Bangladesh.

Naquele horário, só dava pra ver a Torre dos Clérigos por fora e, por fora, ela não parecia nada excepcional. Estava lá uma torre barroquinha que, quando fundada, foi a construção mais alta de Portugal. Dizem que é visível de quase todos os pontos da cidade, e, só de picuinha, eu procurei avistá-la em todos os lugares que fui, mas, em muitos deles, não consegui. Rá.

Eu e a Torre

Antes de seguir as informações do mapa, dei uma voltinha pela praça (Jardim da Cordoaria)  e me diverti com uma escultura “Treze a rir dos outros”, de um tal de Joan Muñoz, familiar. Aproveitei todas as vantagens de estar praticamente sozinha – só eu e o mapa. Voltando a escutar o que Alan me disse no mapa, contornei a praça pela Rua das Carmelitas, onde deveria ter encontrado a livraria Lello e Irmão (lê-se lélo), que está nesta lista das livrarias mais bonitas do mundo, mas passei uma, duas vezes, e nada de ver a livraria. Desistida, fui apreciar os azulejos da Igreja do Carmo, virando na Rua de Cedofeita e depois continuando na  Miguel Bombarda.

Palácio de Cristal

Ao passar pela Rua do Rosário, fiz o caminho que o Alan me indicou, indo de um lado a outro, para que conhecesse as galerias e casas de chá por lá, mas, carnaval, tudo fechado. Segui novamente pela Bombarda até finalmente chegar ao Jardim do Palácio de Cristal, onde não existe mais nenhum Palácio de Cristal – algo que, aparentemente, envolveu uma grande crise política, porque o palácio foi demolido por falta de verba pra restauração. No lugar dele, uma grande tenda abobadada, onde, mais propício impossível, estava montada uma exposição de dinossauros. Os jardins do palácio ainda estavam lá, e fui respirar um tanto de ar verdinho. Segui até os mirantes que davam  para uma vista linda do rio D’ouro, próximo aos jardins de rosas que, pelo frio, estavam todas secas esturricadas.

O rio, a ponte e a pintura da ponte. (e os roseirais esturricados no cantinho)

No caminho para a saída do parque, o movimento humano começava a crescer, e, junto com ele, surgiam outras  companhias inesperadas: alguns pavões caminhavam livremente pelos jardins e eram ora alimentados, ora judiados pelos visitantes, mais ou menos como fazemos com as nossas pombas por aqui.

Seguindo fielmente o mapa, fiz o mesmo caminho de volta, até a rua das Carmelitas, ainda que numa esquina tenha parado para comer um salgadinho e tomar café. É muito difícil encontrar salgados que pareçam bons por lá. Doces bonitos sobram, mas tive que me contentar com um folheado de frango um pouco murcho, meio desanimado.  Uma vez novamente na Rua das Carmelitas olhei e olhei de novo pra achar a tal livraria, até que um amontoado de adolescentes com rostos colados numa vitrine me chamou a atenção. Era lá, num prédio pequeno que estava fechado, com uma faixa enorme anunciando algum lançamento próximo e quase escondendo o nome da livraria. Tentei desviar o reflexo nas vitrines, mas não deu mesmo pra ver muita coisa.

Aproveitando que estava novamente próxima ao Hostel, dei uma escapada para ir ao banheiro e, depois, voltei à Torre dos Clérigos que já estava aberta para visitações. Comprei meu vale-subida e comecei a escalar os longos seis andares de escada que começam amplos e vão afunilando a medida que se chega em cima. No segundo andar, enquanto a vida ainda é bela, dava para ver os sinos da Torre, por uma abertura.  Lá pelo quarto, já não era possível respirar mais fundo por conta da estreiteza da escada. No topo, a vista da cidade era muito bonita, mas gostei mais da experiência da subida do que da vista em si e já começava a me preocupar em como iria descer (só existia aquela escada). Me espremendo e pendurando dos modos mais impossíveis, dividindo o não-espaço com quem estava subindo, fui descendo devagar, aproveitando também da falta de educação alheia, que atropelava os que estavam subindo. Consegui chegar viva ao andar térreo (a volta sempre parece mais rápida que a ida) e ainda dei uma voltinha pela igreja, que não tinha nada de mais.

Segui, então, pela Rua da Galeria de Paris, depois a de Santa Tereza, depois a da Fábrica, depois a Dr. de Magalhães, até chegar na Avenida dos Aliados,  que reconheci como sendo uma pela qual tinha passado na noite anterior. Por lá, um parque infantil estava armado e movimentado, tinha carrossel, chapéu maluco e um tiro ao alvo com bichos variados e uma banana maconheira de pelúcia de prêmio. Depois de dar umas voltinhas e fotografar as crianças cada vez mais fantasiadas, voltei ao rumo do mapa e fui andando pela Dr. Magalhaes Lemo. Cabe dizer que a cidade toda é bem bonitinha e que, se quase nada estava aberto até então, a arquitetura e a vida por lá me divertiam bastante.

Bananas maconheiras

Ao chegar na Rua Santa Catarina já era quase meio dia e, pontualmente, tinha achado o lugar onde o Alan sugeriu que eu almoçasse: Café Majestic. Apesar do constrangimento de sempre, por estar sozinha entrando num restaurante, fui muito bem atendida e acomodada numa mesa central, ao lado de outra que iria acomodar, em instantes, um sonoro grupo de brasileiros. Olhei o cardápio e, confirmando que os preços eram amigáveis, pedi “Magret de pato perfumado com Porto Tawny” (e batatas). Para acompanhar, uma água com gás. A garçonete pingou um azeite num potinho, me mostrando a garrafa como quem mostra um vinho, fiquei achando que era chique. Em seguida, serviu o couvert (pães e azeitonas) lacrado, e assim ele permaneceu – o folheado murcho de frango ainda trazia boas recordações.

Café Majestic

Mal deu tempo de apreciar o ambiente, que era bastante parecido com a confeitaria Colombo do Rio de Janeiro, com grandes espelhos e lustres, o pato chegou. Como nunca tinha comido pato, achei estranho a carne ser tão escura, mas, em todo caso, comi e gostei. Era uma boa carne, um molho razoável e boas batatas. Terminado o prato principal, hora da escolha da sobremesa. Sempre com alguma tensão nessa hora, escolhi a tarte de amêndoa, esperando uma torta delicada com um creminho de amêndoas. No lugar, veio um pedaço de bolo com uma cobertura crocante de amêndoas açucaradas. Não estava ruim, mas não gosto tanto de bolos, então fiquei um pouco decepcionada. Fiquei feliz com os $25,00 da conta, achei justo. Antes de ir embora, passei pela parte de trás do Café, e pude conferir o sol batendo em umas esculturas neoclássicas do tipo musa-anão-de-jardim.

O Porto Parte 1

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Sr. Saudades

Estava uma fila muito grande, a espera na porta por esse senhor que, se não veio de distante, veio de muito longe, mas já foi perto um dia, mas agora estava por onde o olhar não alcança. É o Sr. Saudades, e lá vem ele, de terno e gravata, de chapéu e bengala, e vem tão devagar que nem parece que chega, parece que vai, uma vez mais. A fila é um alvoroço agora, não se sabe quem estava primeiro e quem estava por último, a senhora gorda, que reclamava do calor, da tarde, da água, da lonjura, quase desmaia lá pelo meio. Ah, meu Deus. E o Sr. Saudades tarda, que o velho não é bobo, e nem tolo, e de lento não tem nada; mas tarda, porque é melhor assim, porque assim se dura, assim não há trabalho em esquecer, assim, não é difícil lembrar. Ele está no limite do que há de visível e do que há, aquilo tudo, de invisível, enquanto a fila, à porta de sua casa, acumula, e a senhora gorda parece que desiste, mas pede piedade, e o rapaz dos cabelos longos cede e vai ao final daquilo que, por ora, não vou insistir em chamar de fila. Saudades, saudades, de te ver assim no horizonte e achar que chega tão devagar que eu me morro e me embolo toda, essa confusão de sentimentos, essa porta de uma casa que permanece fechada enquanto não chega, e que meu fôlego é uma senhora gorda. Ai, senhor, não demore.

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msn, 1h53, 12 de janeiro de 2006

pronto, valsinha está boa para escutar agora. sambate o q vem bater nele? tenho medo tb. muito. é um jornal? não. com certeza é uma mão de um cara vestido com um terno. tenho a ligeira impressão q é o seu madruga. futuros amantes! como não?! outra mt legal. qualé? não se afobe não, que nada é pra já o amor não tem pressa ele sabe esperar em silêncio ránananana no fundo do armário, na (nao sei oq) restante, milênios milênios etc. rá? ‘rá’ pro ‘não se afobe, não’ falta emoticon pra ‘o amor não tem pressa ele sabe esperar em silêncio’ mmmm sim sim olha q coisa: Não se afobe, não Que nada é pra já Amores serão sempre amáveis Futuros amantes, quiçá Se amarão sem saber Com o amor que eu um dia Deixei pra você todo bonitinho. rá, tenho essa música aqui num cd dele. escutar agora.:):) (oquei, o cd não está na caixinha) hehe sem panico.achei! tchanrins! uuu… é só manter a calma as vitrines acabei d descobrir q eu cantava ‘os letreiros a ti colori’, huahuahau é, obviamente, ‘os letreiros a te colorir’ huahauhauammmmm poxa hehe parece q tem comunidade no orkut pra essas frases q a gente inventa na hora d cantar sim sim… bombante t falei q baixei o black eyed peas + rebellion? tão feio. qual do b e p? my humps (hehe. imagino… postei de novo no fotolog. com rebellion) kkk mentira! com tunnels ooooo hehe depois eu pego my humps com tunnels. chama hump my tunnel. :P mas ficou ruim.(daqui a pouco vou desistir e ir dormir meeesmo) tb num gosto d ir dormir depois das 2h00 pois é…

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A viagem – parte X. O Porto – parte 1

Cheguei ao Porto pela estação de Campanhã, que tem o mesmo corre-corre de sempre, pessoas saindo com pressa, outras correndo pra pegar o próximo comboio. Lá mesmo, pegaria um metrô que me deixaria próximo ao hostel. Primeira confusão: a máquina de bilhetes mais próxima só vendia os para trens urbanos e não havia sinalização alguma de para onde estava o metrô naquele corredor subterrâneo da estação. Parei um desavisado que corria menos: “Senhor, desculpa, com licença, boa noite, por favor, pode me informar onde fica o metrô.”, era um brasileiro – excesso de educação por nada, bastava um por favor, suspirei – e me indicou uma das escadas. Subi e, depois de umas voltinhas, encontrei a máquina de bilhetes do metrô. Os cartões no Porto são chamados “Andante” (as máquinas que os vendem têm esse nome também)  e valem para os outros tipos de transporte. Salvo engano, o preço da passagem foi de $1,25 (existe uma diferença de preço por zona para a qual se quer ir, um quadro na própria máquina indica a qual zona pertence cada estação). Pelo mapa, poderia pegar qualquer uma de três linhas que partiam da estação, só não poderia pegar uma que vinha de outro lugar e ia pro lado contrário. Obviamente me dirigi à plataforma errada.

O metrô no Porto correspondia à lenda ouvida algumas vezes de que “na Europa” não é difícil burlar as regras e usar o transporte público gratuitamente. Existiam algumas maquininhas para se ‘validar’ o cartão antes da viagem, mas não havia portas ou catracas, ou seja, você valida o cartão se quiser. Se não quiser, anda de graça e reza pro fiscal não te pegar (eu não sou de correr riscos). Regrinhas básicas para validação do cartão no Porto: é preciso passá-lo nas maquininhas sempre que for mudar de linha e você tem uma hora pra usá-lo depois de validado pela primeira vez. Aprendi as regras algum tempo depois de ter comprado um segundo cartão à toa porque validei o meu na linha que não poderia pegar e tive que ir para o trilho do outro lado, me perdendo muito no caminho, tendo até saído da estação pra chegar nas outras linhas.

Outros detalhes importantes: quatro linhas diferentes passam pelo MESMO trilho em umas quatro estações no porto, indo até em direções contrárias e não há diferença de cores ou tipos de trens, só o destino no letreiro luminoso da frente de cada um muda. Não sabia disso na primeira vez em que peguei o trem e supus que, como o adesivo com a logo do metrô era roxo, aquela era a linha roxa. NÃO. O adesivo da logo é sempre roxo, não importa a linha. Dei sorte porque poderia pegar qualquer trem que passava por ali. Outra coisa que indica a linha que está no trilho é a tela de horários da plataforma, sempre bastante pontual. Depois de uma mudança de linha menos conturbada (em uma estação mais sinalizada), parei na estação São Bento, a mais bonita da cidade e a mais próxima do hostel. Como de costume, me perdi mais um pouco, indo para a direção errada e subindo um morro desnecessário, às vezes acho que sou pior com mapas do que sem eles.

Yes! Porto Hostel

Tinha reservado a opção de hostel mais cara e bem-avaliada no Hostel World, que era também a mais bem-localizada. Por inexpressivos $36 pelos dois dias (mais uma taxa de reserva no site), ficaria num quarto quádruplo misto – inicialmente, tinha reservado um quarto feminino, mas houve um imprevisto e me perguntaram se poderiam me mudar de quarto. O Yes! Porto Hostel como o nome sugere, é o sonho de qualquer viajante jovem e animado: muito limpo, muito arrumado, com paredes adesivadas, tudo no lugar, tudo muito certinho. Eu prefiro quando as coisas são mais quebradinhas, mais complexas e menos funcionais.

Acho que como defeitos para um público “Uhul!”, no hostel, estão apenas a falta de elevador, o wi-fi só funcionar na área da recepção e o fato de o banheiro ser misto, ou seja, a área de banho e de vasos sanitários é dividida com meninos, muitas vezes sem muita mira. Por outro lado, o espaço nas duchas é bom, dá para tomar banho e trocar de roupa tranquilamente dentro de cada box e a limpeza é feita com muita frequência, de forma que não presenciei a sujeira, mesmo dividindo o hostel com um grupo de 58 intercambistas de vários países que estudavam na Espanha (o tal ‘imprevisto’ que me mudou para o único quarto em todo o hostel que não abrigava o grupo).

No check-in, a recepcionista, vestindo um bigode plástico por ocasião do carnaval, me entregou uma pulseira magnética com o número do meu quarto e o número da minha cama. A pulseira abria tanto a porta do hostel, quanto a porta do meu quarto, quanto a grande gaveta embaixo da minha cama, que comportava facilmente uma mala média. Apesar do aspecto over-arrumadinho, o quarto, localizado no isolado quarto andar, tinha o teto inclinado com três janelas com vistas incríveis para a torre dos clérigos e para uma praça próxima. Estava feliz, portanto.

Logo depois da minha chegada, entra uma companheira de quarto. Ela era de Curitiba, fazia engenharia civil e iria passar seis meses em intercâmbio no Porto. Passaria a primeira semana no hostel, procurando um lugar fixo para morar. Tinha chegado ao Porto naquele dia mais cedo e teve uma das malas extraviadas pela TAP, mas estava tranquila. Contou que não falava inglês e não conseguiu se comunicar com uma alemã que puxou papo com ela no banheiro.

Em instantes, uma terceira habitante, notadamente estrangeira pela tonalidade do cabelo, entra no quarto. “Você é a nossa vizinha?” sotaca a curitibana, a novata vira a face e constato que estou diante de uma sósia da versão jovem da Cláudia Schiffer, que faz cara de quem não entendeu o português. “Are you our neighbor?”, gaguejo eu, “yes!” ela sorri claudia-schiffermente, mexe mais um pouco em suas coisas e deixa o quarto. Era a alemã do banheiro, me informa a curitibana. Se eu entendi bem, estou em Portugal com a Claudia Schiffer, então me sinto em um universo paralelo, remake de “Simplesmente Amor”, em que o quadro do Colin Flirt e o do recém-viúvo resolvem se unir. Nessa nova dimensão, seria eu o Rodrigo Santoro? Dúvidas existenciais.

Decido tomar um banho e, ao abrir a mochila para separar as roupas, descubro que tinha esquecido a toalha. Eu, que trouxe duas toalhas na viagem, para poder dispensar uma em Paris pra dar espaço às coisas que eu compraria, esqueço a toalha na casa do Alan. Não estava animada para pagar $5 pela toalha do hostel, então acabei usando uma blusinha improvisada para me secar – o que no final das contas foi mais vantajoso, a blusinha secava mais rápido que a toalha. Dica para tomar banho em cubículos que tenham ganchos para roupas: levar aqueles sacos de pano que se fecham com uma cordinha, toda a roupa pode ser colocada no saco e pendurada pela cordinha no gancho, sem riscos de molhar, por exemplo, a única calça que foi levada para a semana de viagens mochileira. A dica de levar sacos de pano em vez dos de plástico peguei do blog da Lívia, e eles são realmente mais práticos e diminuem o barulho dentro de quartos compartilhados com estranhos, acho que ocupam até menos espaço.

Banho tomado, volto ao quarto, a curitibana conversa com a família ao telefone, então penso em tentar o wi-fi da recepção, mas, descendo as escadas, escuto os primeiros acordes de “ai se eu te pego” e volto correndo. Espero a curitibana desligar o telefone e a chamo para sair e comer alguma coisa. Na recepção, encontro com a Claudia Schiffer e a convido pra nos acompanhar.

Francesinha

Andamos sem rumo enquanto a alemã conta que acabou de terminar um intercâmbio de seis meses numa faculdade em Salamanca, na Espanha, onde estudava história latino-americana, e tinha chegado naquele dia ao porto, de ônibus, numa espécie de escala para pegar um avião no dia seguinte para Colônia, sua cidade natal. Paramos em uma lanchonete aleatória sem clientes ou charme, e, apesar do frio intenso, nos sentamos nas mesas da calçada (eu prefiro aqui fora, e você, Claudia Schiffer, não está com frio? Não, sou alemã!). Por lá, decido pedir a comida típica que me foi recomendada pelo Alan, a “Francesinha”. Por $6, a alemã me acompanha no pedido, e a curitibana, que teria mais tempo no país para experimentar a iguaria, pede um hamburguer. Tento pedir vinho para acompanhar, mas a garçonete me repreende e fala que é costume comer a francesinha com imperial ($1,20), reparo nas garrafinhas long-neck vazias das mesas ao lado, então pergunto se servem também chopp (fino), servem. Contrariando minha previsão de morrer de frio, decido seguir a tradição. Pouquíssimo tempo depois, chegam nossos pratos.

A francesinha é um enorme sanduiche de pão de forma feito com todos os tipos de carne, coberto com queijo derretido, mergulhado em uma sopa super-picante e, no caso, acompanhada por batata frita. Em algumas lanchonetes, também é servida uma versão especial com ovo frito e bife. Resumindo, é o prato perfeito para os amantes de gororobas carnívoras e pimenta. Não sou muito fã da mistureba de carnes, mas adoro pimenta, e, estando lá, começo animada o desafio do prato.

Um amigo da curitibana, que ela conheceu pela internet e haviam se encontrado pela primeira vez naquele dia no aeroporto, se une a nós na lanchonete. Ele, coincidentemente, estuda história e está fazendo intercâmbio no Porto. Seus olhos brilhavam para a Claudia Schiffer, mas não consegui definir exatamente se era pelo fato de ser a Claudia Schiffer ou por ela estudar história latino-americana. Quando estou nas últimas garfadas da minha francesinha, a Claudia, na metade da dela, começa a reclamar que era um prato grande demais (e era, mas, em minha defesa, ela comeu a batata frita, e eu, só o sanduiche – pensei nisso enquanto maldizia mentalmente a magreza dela).

Depois da lanchonete, a curitibana iria beber no apartamento que o amigo divide com mais duas brasileiras e nos convida, mas, como nosso tempo é curto, sugiro para a alemã irmos conhecer um bar que o Alan me recomendou: O Piolho. O amigo dos olhos brilhantes sabe onde fica e nos deixou na porta. O Piolho é um bar que reune a juventude estudante do Porto e possui uma bonita área externa com espécies de estufas de vidro para os clientes fumantes, como não era o nosso caso, sentamos no interior. Por ocasião do carnaval, havia muita gente com acessórios divertidos e, somando-se a isso, era dia de jogo e alguns torcedores se exaltavam a cada lance mostrado na TV. Tomamos uma imperial cada a $1,40 e a alemã sugere irmos a um bar nas redondezas que um amigo dela tinha sugerido, o Plano B, e lá vamos nós.

No Plano B, a atmosfera é bem diferente: um salão na penumbra, mezzo iluminado por lustres enormes que pendem do teto, espelhos grandes ampliando o ambiente, paredes vermelhas, mesinhas redondas pequenas, grupos de pessoas silenciosas e uma trilha sonora moderninha retrô. Me senti em casa. A alemã pede uma coca-cola e eu peço o cardápio. A garçonete vai para trás do balcão e demora uma eternidade preparando um drink para outra mesa. Escolhido o meu pedido, vou até outro atendente e tento pedir o tal Porto, pra já riscar a experiência da todo list, mas só havia o porto branco então peço o vinho tinto mesmo e aproveito para lembrá-lo da coca-cola perdida da Claudia Schiffer.

Munidas das nossas bebidas, conversamos mais e ela me conta que precisará trabalhar como garçonete para se recuperar financeiramente dos gastos do intecâmbio, que quer ser professora, que quer fazer mais uma viagem para a América Latina, que já foi a Buenos Aires, que tem medo de avião, que mora em Colônia com o namorado, que está, ao mesmo tempo, feliz por voltar pra casa, mas muito triste por deixar os amigos, que a noite anterior foi de muita festa de bota-fora e que ela estava exausta. Toca Moloko – Fun for me, e comento que era minha música favorita em 98, ela não conhece. Terminamos as bebidas, ela tira algumas fotos do lugar e seguimos de volta para o hostel.

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meio aberta

Corro em direção à porta.

- Obscena!

Me desconstrói esse seu jeito de dizer as palavras pelas sílabas, dissociadas do significado. Igualmente assemântica, eu, sem fôlego e prostrada no batente, a observo. Ainda não parou de rir. Então, desfeita pelo esforço de todas as minhas tentativas anteriores, sorrio, um pouco para finalizar a respiração carregada, outro tanto para retribuir sua bela exposição de dentes:

- A porta estava aberta.

- Meio aberta. – Você me corrige, cessando a risada. Sua boca se contrai, medindo a força necessária para se desfazer da graça, enquanto seu olhar a denuncia, irônico, desafiador.

- Você se diverte comigo.

- Muito pouco.

Assim, num sopro de voz, ela me agride. Obscena, sou um Pequeno Príncipe, e ela é a rosa com esses espinhos que dão conta de machucar somente quem a procura com delicadeza, quem se importa com ela a medida inversa que se importa consigo. Me aproximo novamente e toco seus pés descalços, afastando as armas, e silencio os outros pensamentos.

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